sexta-feira, 24 de julho de 2009

Devia...?

Devias abrandar o ritmo, diz ela com tom preocupado. Pois. Sim, devia, penso eu.
Na verdade, devia muitas coisas. Devia pensar menos. Devia sentir menos ainda. Devia ter um ar mais acessível, de forma a não afastar a maioria das pessoas que se cruzam comigo. Devia confiar menos naquelas a quem permito uma aproximação. Devia estar menos tempo sozinha; a solidão torna-se viciante, corroedora de tempos e sentidos. Devia acabar de ler o livro que permanece ao lado da cama há mais de um mês. Devia mudar os meus cactos para os vasos maiores que comprei há quinze dias. Devia cozinhar mais, mesmo que me custe fazê-lo só para mim. Devia tratar da roupa hoje; o guarda-fatos vai ficando vazio e a roupa amontoa-se no cesto para a roupa suja e no cesto da roupa por engomar...Devia... mas o meu tempo não dá para tanto.
Devia reservar mais tempo para mim. Devia desligar os telemóveis e o despertador.
As horas que o raio do dia tem (mas quem é que se lembrou que o dia só haveria de ter vinte e quatro horas?) são poucas. Os meus amigos reclamam a minha atenção; exigem de forma doce a minha presença em jantares, festas ou numa simples conversa com cheiro a café. Não posso dar-lhes tanto, não consigo. Falho vezes sem conta, adio encontros, digo que talvez para a próxima dê. Quando consigo arranjar um "buraco" vou. Esqueço o cansaço; desmarco planos; calo a cama que me chama lânguidamente, vou mais logo, o descanso pode esperar mais umas horas. Camuflo olheiras, arranjo-me o melhor que consigo, porque continuo a reservar tempo para fazê-lo como se de um ritual se tratasse. Escolho a roupa meticulosamente e nunca dispenso os sapatos de salto agulha mesmo que os pés me implorem algo diferente. E nesse momento esqueço tudo. Visto-me de outra pessoa. Saio de casa e sorrio, porque aquelas horas são minhas e daqueles que tanto negligencio. Falo, escuto, rio, sorrio, choro, danço, bebo martini's. Confundo-me com as luzes e outros corpos anónimos. Sinto o corpo suado, a roupa colada à pele e o cabelo colado às costas. Não importa. Um miúdo mete conversa comigo mas não ouço; manda para o ar um Ai és tão gira, posso conhecer-te; e a partir daí não escuto mais nada. A falta de originalidade deixa-me entediada. Troco olhares com desconhecidos. Não quero ninguém. Já é dia. Vou para casa sozinha, com os olhos a pedirem óculos de sol e sinto-me bem. Lavo a cara, o corpo e a alma e nem me lembro de adormecer. Acordo, longas horas depois, com ressaca. Apesar de tudo, tenho a firme certeza, batendo no peito, de que são estas coisas que me vão dando força para continuar no mesmo ritmo.
Devias abrandar o ritmo. Devias arranjar alguém. Ela tem razão, devia. Talvez, mas não hoje, não amanhã. Talvez no outro dia...

4 comentários:

ManUel disse...

eh laaa.... bem escrito! :)

isto foi num sábado não ? :D

Pedro Branco disse...

Só me apetece dizer: Sê! Deixa-te ir no que fazes ou no que queres fazer. O tempo só se agarra se for com as nossas mãos. O resto será o acaso a determinar...

Gostei muito deste texto. Muito bem escrito!

Beijo.

Observador disse...

Seja o que fôr.
Um dia destes...

José Carlos Marques disse...
Este comentário foi removido pelo autor.