quarta-feira, 3 de junho de 2009

Esquecimento.

Ele pensou que seria mais fácil desistir. Escrever a dor, não para a reforçar mas, de alguma forma, adormecê-la num sono profundo. A escrita poderia tornar-se esquecimento. Embriaguez da alma. Ele esqueceu os nomes e os rostos. Apagou caminhos percorridos para não poder retroceder. Ele perdeu-se por não querer encontar-se nos sorrisos familiares daqueles que não mais conhecia. Cobardia. Coragem. Ou as duas. Elas podem andar de mãos dadas. É possível a sua coexistência no corte com aquilo que julgamos ser necessário à nossa sobrevivência, enquanto seres sociais e dependentes de contacto. Ele selou cuidadosamente cheiros em envelopes escuros e enviou-os para longe, sem destino. Rasgou fotografias nas quais nada reconhecia. Queimou papéis amarrotados, bilhetes e folhas soltas, tudo guardado desordenadamente em gavetas. Já não sabia quem lhos tinha escrito ou para quem, em dias longínquos, os escrevera. Nem tinha a certeza se aquelas palavras foram suas. Delas, apenas a letra não lhe era totalmente estranha. Removeu cada partícula de outros impregnada em si. Cirurgicamente, para não deixar marcas. Imaginou-se sozinho. Não estava... Tinha-se por companhia. Gostou de sentir esse abandono a si mesmo, essa liberdade isenta de memórias. Ele esqueceu. Esqueceu-se. E viveu mais feliz.

Ou não.

1 comentário:

João Pedro disse...

Não vejo outro caminho agora, Tudo de mim. Ou quase.
Por isso, vou acreditar que viveu mais feliz.
Obrigado. São gestos assim, os que mais aprecio. Preocupas-te...
Resta-me guardar o teu gesto onde merece ficar, no coração.

Beijo,