domingo, 13 de dezembro de 2009

O tempo não tem tempo.




A palavra tempo sempre despertou em mim sentimentos contraditórios. Nunca o entendi muito bem: afinal quanto tempo tem o tempo, quanto tempo nos dá o tempo?


Recomecei a usar relógio de pulso apenas de há uns anos para cá... Tudo porque, de cada vez que o usava, sentia que ele teimava em apressar-me para algo que não queria que chegasse, evaporava minutos que queria viver para sempre ou, simplesmente, não avançava para algum momento que ansiava que acontecesse. Daí até se tornar um vício olhar para os três ponteiros no mostrador, foi um passo. Passava a vida, suspensa na ansiedade, de olhos postos no pulso, observando cada deslizar cadenciado até que, a muito custo, consegui manter com aquele engano engenhoso uma relação mais saudável.

Nas minhas certas incertezas sei, agora, que o tempo é eterno e se move em círculos. Traz, leva e, muitas vezes, devolve aquilo que arranca de nós à socapa, qual caçador furtivo à espera da melhor oportunidade para apanhar a presa desprevenida.

Aprendi a apreciar os instantes que antecedem algo que eu quero muito que chegue... o batimento cardíaco acelerado, a garganta seca e a cabeça produzindo mil imagens que de tão desejadas se tornam reais. Consigo, agora, aproveitar a brevidade de momentos em que um olhar indiscreto e inquieto diz tudo, sem angustiar-me com o inevitável fim. O olhar, esse, guardo-o na escassa eternidade de que me faço e, por isso, sobrevive ao avançar galopante do tempo. Diz-se do momento ser o mais breve período em que o tempo pode dividir-se. Eu digo, esse momento poderá ser o mais duradouro de todos, dentro da sua curta duração. Já não penso nas noites que comem os dias impiedosamente, porque os risos e sorrisos, os olhares cúmplices sobrepõem-se à triste ideia de finito. E isso chega para que tudo se sustenha. Embrulho cada pedacinho de cada momento em papel colorido, porque um dia estaremos demasiado velhos para dizer piadas sem sentido e viveremos de memórias. Redescobriremos, então, cada um deles no pó de tempos passados, mas que permanecem tão presentes agora como naquele lapso de tempo. Neste tempo não há tempo. Neste tempo, ausente de si mesmo, deixo apenas que os meus sentidos naufraguem em instantes que carregarei comigo, eternamente.



Acho que voltarei a esquecer-me de usar relógio...

2 comentários:

Pedro Antunes disse...

é sempre assim ...
a espera pelos bons momentos demora muito e quando eles finalmente chegam passam depressa,tão depressa como se nem os pudessemos viver...

por contrário os momentos menos bons atropelam-nos de tão depressa chegarem mas quando chegam temos de penar para supera-los como se fosse algo de ibevitavel, como se houvessem degraus que tivessemos de subir na provação.

acho que isso não tem a haver com o tempo mas com o limiar do sonho e da dimensão espacial que o proprio sonho tem...

quando se como um chocolate, ainda que com toda a tranquilidade do mundo ele acaba sempre por acabar mais depressa do que querias.

por contrario de tiveres de comer uma cebola amarga por mais que mastigues parece que nunca mais vais acabar e no final o amargo continua indefenidamente.

se queres saber mesmo com relogio,mesmo a querer parar o tempo isso é algo de inevitavel.

há uns anos fiz uma peça de teatro baseada nos amores de ovidio em que era o homem do tempo que passa. estava vestido com uma túnica cinzenta e um chapeu de coco, tinha uma ampulheta que erguia nas mãos e que ia virando há medida em que ela se esvaziava. Isso repetia-se em vários momentos
da cena, alguns alegres, outros tristes e por incrivel que pareça nos tristes a ampulheta parecia senpre demorar mais a esvaziar, como se houvesse algo que a determinasse.

Disseram-me que foi um dos melhores papeis que fiz...

pessoalmente acho que foi algo que me ajudou a relativizar o tempo e a querer aproveitar ao máximo o que o sonho tem de bom....

sei que podes achar-me utopico, mas afinal a propria vida, o próprio tempo são utupias...

a realidade mede-se dia a dia, de sol a sol, de lua a lua na imensidão dos sonhos, por isso e para terminar este já longo post digo-te algo que a minha mãe me diz tantas vezes.

"diverte-te"
é maravilhoso ler-te.

conta comigo

Little John disse...

Bem, o post anterior já diz muito! A relativização do tempo já é conhecida de todos, mas acho que é esse mesmo factor que faz com que os bons momentos valham a pena. Passam rápido, por isso toca a vive-los ao máximo!

Parabéns por este post maravilhoso!